Manifesto SlutWalk Nacional 2012

24 Jun

Cartaz da SlutWalk Lisboa 2012

SlutWalk* Portugal

* SLUT, galdéria, desavergonhada, puta, descarada, vadia, badalhoca, fácil

Em Janeiro de 2011 um polícia afirmou em Toronto que as mulheres devem evitar vestir-se de forma provocante se não quiserem ser violadas. Um ano depois, Portugal junta-se pela segunda vez à vaga de indignação que esta afirmação causou um pouco por todo o mundo, através da SLUTwalk Porto e da SLUTwalk Lisboa.

A SlutWalk tem como base a recusa da culpabilização das vítimas de violência sexual e de género; a recusa da vergonha pela afirmação da auto-determinação sexual de cada pessoa; a recusa dos moralismos sobre as várias expressões de sexualidade e não-sexualidade existentes, desde que exercidas com o consenso de todas as pessoas envolvidas.

Uma SLUT (galdéria, desavergonhada, puta, descarada, vadia, badalhoca, fácil) é qualquer pessoa que pretende afirmar o direito ao seu próprio corpo, o direito à(s) sua(s) sexualidade(s) (ou ausência dela(s)), o direito a vestir-se como bem entende, o direito a expressar-se livre e responsavelmente – e que, por isso, é insultada, agredida, discriminada, atacada. Não existe um comportamento típico da SLUT.

A SlutWalk pretende reclamar as palavras usadas para insultar, magoar e discriminar todas essas pessoas, reclamar o direito à não-moralização de quem é “fácil”, “difícil” ou “assim-assim” – e à violência de género associada. Temos a noção de que nem todas as pessoas se encontram em posição de poder reclamar esta e outras palavras. Temos a noção de que nem todas as pessoas são agredidas com estas palavras em específico. Ainda assim, defendemos que a recuperação de palavras agressoras é uma estratégia válida e possível, a par de outras – e que deve ser desenvolvida em conjunto com as lutas de quem não o pode ou deseja fazer.

A SlutWalk não pretende falar por todas as mulheres, ou por todas as pessoas. As diferentes experiências de etnia, estatuto sócio-económico, cultura, religião, configuração corporal e de género, etc, não se prestam a isso. Mas, ainda assim, a experiência de se ser chamada galdéria, desavergonhada, puta, descarada, vadia, badalhoca ou fácil está bastante disseminada em Portugal, e faz parte de uma dinâmica mais abrangente de discriminação e opressão patriarcal.

As pessoas envolvidas na SlutWalk são feministas – mulheres, trans*, homens, genderqueer, entre outras identidades. O feminismo não trata apenas de ‘direitos das mulheres’, trata da dignidade humana para todas as pessoas, independentemente do seu sexo ou género. É essa dignidade que é violada quando se culpam as vítimas de violência sexual e de género, quando se atacam pessoas por aquilo que elas fazem com o seu próprio corpo, tempo, roupa, palavras e atitudes.

Convém, no entanto, não esquecer que as mulheres* são ainda as mais claramente visadas pela violência de género: em 2011, mais de meia centena de mulheres foram vítimas de homicídio ou tentativa de homicídio por parte de companheirxs ou esposxs (dados da UMAR) e 40% das mulheres com mais de 60 anos também é alvo de abusos (dados da Univ. do Minho). O corpo de qualquer pessoa deve ser propriedade da própria pessoa. Recusamos a existência de proprietários de primeira (geralmente, homens), de segunda (geralmente, mulheres) e de terceira (geralmente, pessoas trans*).

Se SLUT – galdéria, desavergonhada, puta, descarada, vadia, badalhoca, fácil – é uma pessoa que decide sobre o seu corpo, sobre a sua sexualidade, e que procura prazer (nas suas várias formas), então, somos SLUTs, sim!

Não queremos piropos sexistas, não queremos paternalismo, não queremos violência sexual. Dizemos não, por mais cidadania. Dizemos não, por mais democracia. Dizemos não, pela possibilidade de todas as pessoas poderem habitar os espaços públicos e privados em igual segurança, com igual respeito. Dizemos não à dominação patriarcal do espaço físico onde as mulheres* se movimentam. Dizemos não, por mais liberdade.


Se ponho um decote… Não é Não!

Se pus aquelas calças de que tanto gostas… Não é Não!

Se visto calções ou mini-saia … Não é Não!

Se uso burqa… Não é Não!

Se tenho as mamas à mostra … Não é Não!

Se durmo com quem me apetece… Não é Não!

Se sou virgem… Não é Não!

Se tenho mais de 60 anos … Não é Não!

Se passo naquela rua… Não é Não!

Se vamos para os copos… Não é Não!

Se me sinto vulnerável… Não é Não!

Se sou deficiente… Não é Não!

Se saio com xs maiores galdérixs…Não é Não!

Se ontem dormi contigo… Não é Não!

Se sou trabalhadora sexual… Não é Não!

Se és meu chefe… Não é Não!

Se somos casadxs, companheirxs, namoradxs… Não é Não!

Se sou tua paciente… Não é Não!

Se sou tua parente… Não é Não!

Se sou imigrante ilegal… Não é Não!

Se tenho relações poliamorosas… Não é Não!

Se sou empregada de hotel… Não é Não!

Se tens dúvidas se aquilo foi um sim, então… Não é Não!

Se és padre, imã, rabi ou pujari… Não é Não!

Se beijo outra mulher no meio da rua… Não é Não!

Se a pessoa com quem estou agora gosta de sexo a três… Não é Não!

Se sou brasileira, cabo-verdiana, angolana ou de outro país que sofreu colonização… Não é Não!

Se tenho mamas e pila… Não é Não!

Se disse sim e já não me apetece… Não é Não!

Se sou empregada doméstica… Não é Não!

Se adoro ver pornografia… Não é Não!

Se ando à boleia… Não é Não!

Se estamos numa festa swing, numa sex party ou numa cena BDSM… Não é Não!

Se já abrimos o preservativo… Não é Não!

NÃO é sempre NÃO. Quando é SIM, não há ambiguidades ou dúvidas porque sabemos o que queremos e sabemos ser clarxs.

Marcha de Lisboa 2012

24 Jun

A data já foi escolhida: 1 de Julho de 2012.

Juntem-se ao evento no Facebook, AQUI.

Manifesto 2011

25 Jun

in English

SlutWalk* Lisboa

Pela autodeterminação sexual em todas as circunstâncias

* SLUT, galdéria, desavergonhada, puta, descarada, vadia, badalhoca, fácil

Em Janeiro de 2011 um polícia afirmou em Toronto que as mulheres devem evitar vestir-se de forma provocante se não quiserem ser violadas. A SLUTwalk Lisboa junta-se à vaga de indignação que esta afirmação causou um pouco por todo o mundo.

Recusamos totalmente a culpabilização das mulheres face a situações de violência sexual. Recusamos a cumplicidade com a agressão e com quem agride, seja pelo silêncio ou pela benevolência. Recusamos a objectificação e mercantilização dos corpos das mulheres. Mude-se as leis, mude-se quem agride. Mude-se a cultura patriarcal que diz às mulheres para não serem violadas, em vez de dizer aos homens para não violarem.

Mude-se a moral dominante, segundo a qual SLUTs somos todas nós, mulheres casadas, solteiras, viúvas ou divorciadas, heterossexuais ou lésbicas, bissexuais, assexuais, com ou sem companheirxs, monogâmicas ou não, com ou sem filhxs. SLUTs são todas as mulheres que não inibem gestos, emoções, desejos ou vontades, que vestem, falam e vivem de acordo com os seus próprios padrões, que se não vergam à moral dominante.

Se SLUT – galdéria, desavergonhada, puta, descarada, vadia, badalhoca, fácil – é uma mulher que decide sobre o seu corpo, sobre a sua sexualidade, e que procura prazer, então, somos SLUTs, sim!

Não queremos piropos sexistas, não queremos paternalismo, não queremos violência sexual. Dizemos não, por mais cidadania. Dizemos não, por mais democracia. Dizemos não, por mais liberdade.

Se ponho um decote… Não é Não!
Se pus aquelas calças de que tanto gostas… Não é Não!
Se uso burqa… Não é Não!
Se durmo com quem me apetece… Não é Não!
Se sou virgem… Não é Não!
Se passo naquela rua… Não é Não!
Se vamos para os copos… Não é Não!
Se me sinto vulnerável… Não é Não!
Se sou deficiente… Não é Não!
Se saio com xs maiores galdérixs…Não é Não!
Se ontem dormi contigo… Não é Não!
Se sou trabalhadora sexual… Não é Não!
Se és meu chefe… Não é Não!
Se somos casadxs, companheirxs, namoradxs… Não é Não!
Se sou tua paciente… Não é Não!
Se sou tua parente… Não é Não!
Se sou imigrante ilegal… Não é Não!
Se tenho relações poliamorosas… Não é Não!
Se sou empregada de hotel… Não é Não!
Se tens dúvidas se aquilo foi um sim, então… Não é Não!
Se és padre, imã, rabi ou pujari… Não é Não!
Se beijo outra mulher no meio da rua… Não é Não!
Se sou brasileira, cabo-verdiana, angolana ou de outro país que sofreu colonização… Não é Não!
Se tenho mamas e pila… Não é Não!
Se disse sim e já não me apetece… Não é Não!
Se sou empregada doméstica… Não é Não!
Se adoro ver pornografia… Não é Não!
Se ando à boleia… Não é Não!
Se estamos numa festa swing, numa sex party ou numa cena BDSM… Não é Não!
Se já abrimos o preservativo… Não é Não!

NÃO é sempre NÃO. Quando é SIM, não há ambiguidades ou dúvidas porque sabemos o que queremos e sabemos ser claras.